calendar_today janeiro 5, 2021 person Portal Maloca mode_comment 0

 

No começo do mês de dezembro do ano passado (2020), noticiou-se a produção do filme local “A Benzedeira”, produção amazonense que narra a história de Dona Luiza Pereira, uma benzedeira que é impedida pela justiça de pôr em prática seus conhecimentos medicinais.

A narrativa denuncia a intolerância cultural e religiosa que paira sobre a figura das benzedeiras, bem como, enaltece a luta pela preservação de uma das mais características práticas amazônicas: o benzimento.

Comumente descreve-se as benzedeiras como sendo sempre mulheres, mães, com baixo poder aquisitivo e que dominam as rezas e ervas, desfazem “desmentiduras” e receitam banhos e remédios caseiros. Em regra, socorro daqueles que buscam alívios para suas doenças e enfermidades. É considerada por muitos como uma médica popular, onde o mundo místico e os conhecimentos curativos da natureza se entrelaçam. Por fim, para os mais apaixonados, benzedeiras atuam como intermediárias entre o ser humano e o sagrado.

 

benzedeiras

 

Cultura Amazônica

 

Figura emblemática da cultura amazônica, a benzedeira é personagem que enriquece a atmosfera amazônida além de ser uma das guardiãs do saber tradicional, do conhecimento da natureza, do místico e do sobrenatural. Esquece-se o quão significativa é essa figura para o processo de afirmação e identidade de toda a comunidade em que atua, no entanto, as benzedeiras resistem ao esquecimento e a intolerância cultural e religiosa pelo que dizem ser uma missão: ajudar.

Essas personagens trazem consigo os saberes tradicionais, não científicos, perpetuados pela oralidade e em um ato quase que devocional os empregam em prol de uma coletividade. Em verdade, muitas entendem tratar-se de um chamado e uma responsabilidade ao ponto de se configurar uma “cura mútua”, uma troca necessária entre a “anciã” e o “enfermo”.

 

Sincretismo Religioso
 

Tratando-se de Brasil, a pluralidade é inerente e quanto as benzedeiras não seria diferente. Uma religiosidade sincrética, fruto dos contextos históricos que constituem o povo brasileiro, une à pratica de cura e proteção das benzedeiras influências culturais africanas, católicas e indígenas, sendo assim, comum, banhos com cravinho se unirem ao tradicional pai nosso católico e a pajelança a sinais da cruz.

Outro aspecto relevante é a manutenção do ofício das benzedeiras, estas mantêm seus saberes e práticas segundo um repasse intergeracional, no entanto, tal relação não se limita ao vínculo sanguíneo. Entende-se que o “dever das benzedeiras” transpassa o sujeito sendo possível considerar como um dom e uma missão o benzimento.

 

Estereótipos e Preconceitos

 

As benzedeiras padecem de incompreensão e desvalorização, muito em virtude de uma imagem construída com base em estereótipos e preconceitos e marcada pelo primitivismo. Os efeitos desse desprestígio é agressivo, frequentemente, essas figuras tem a sua prática desconsidera e sofrem duras tentativas de proibição e até criminalização.

Em termos práticos, as benzedeiras são vítimas de uma dupla intolerância: a religiosa e a cultural. Por conta da construção de uma “religiosidade” que superestima as religiões “ocidentais” em detrimento das de matriz africana e indígena padecem da incompreensão de suas crenças e rituais. Por outro lado, culturamente, são hostilizadas por conta de um processo histórico de marginalização e exclusão por conta do seu ofício.

Por fim , apesar de serem vítimas da atroz intolerância por parte de grande parte da população, são figuras respeitadas e reconhecidas em suas comunidades. Tal fenômeno se deu porque construiu-se em torno dessas figuras um cosmo religioso, demonstrando a interculturalidade da religiosidade brasileira e reafirmando o papel social e relevância cultural dessas personalidades.

 

Benzimento
 

Presente nas culturas desde a Antiguidade, o benzimento se constitui em uma relação entre o sobrenatural e a medicina popular. Na cultura do benzimento, o tripé mente-corpo-espírito é inseparável, e sua intervenção inclui a cura simultânea desses três elementos. As benzedeiras entendem que o corpo não se separa do espírito, portanto, as doenças físicas são tratadas como males espirituais.

Além das questões “místicas” e culturais que envolvem o benzimento, essa prática em muitos casos e localidades representa o único meio de acesso a “saúde”, nessa conjuntura, não se analisa a efetividade e sim as opções, ou melhor, a ausência destas.

 

 

Sobreviventes
 

Em meio a um universo de quebrantos, mau-olhados, cuíras, moléstias, secuiaras, arriamentos, piras, desmentiduras, etc as guardiães do tradicional, as sábias da natureza, as manipuladoras das ervas e plantas e tantas outras denominações que nutrem o imaginário em volta das benzedeiras, resistem bravamente a todas as tentativas de extermínio da sua classe e do seu ofício.

Pelo benzimento colocam-se na linha de frente, pela identidade cabocla mostram-se representantes e pela liberdade mantêm-se alertas. As Benzedeiras são sobreviventes e continuarão sendo por não temerem o desconhecido e por nutrirem uma fé tão grande em seu ofício que todas as demais questões tornam-se pormenores.

Essas figuras tão características da região amazônica continuam a sua árdua missão de ajudar apesar dos obstáculos da intolerância que invisibiliza, limita e prejudica. Empunham a medicina popular contra as desigualdades e falta de acesso dos grupos marginalizados e os saberes e práticas tradicionais contra a exclusão.

Por fim, as benzedeiras lutam pela sua liberdade de ofício e religiosa e pelo reconhecimento como componente da exuberante identidade amazônica e cabocla. Reconheçamos as anciãs tradicionais e o seu valor cultural inestimável e valorizemos a sua luta pela preservação das tradições e costumes amazônicos.

 

 

 

Veja também: Portal Maloca – A luta dos povos indígenas na voz de Thaline Karajá

 

 

Foto 1: Elyton Pereira

 

Foto 2: Agência Brasil 

 

Foto 3: Carlos Palito/ TV Gazeta

 

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