calendar_today dezembro 29, 2020 person Portal Maloca mode_comment 0

 

Em novembro, em um vídeo publicitário, foi apresentado o novo tema do Garantido para o Festival Folclórico de Parintins de 2021. Em referência ao tema do próximo ano, o vídeo traz alguns personagens importantes da história do boi-bumbá, como João Batista Monteverde e Rec Monteverde, filho e neto, respectivamente, de Lindolfo.

Nas imagens, tio e sobrinho chegam a Parintins em um barco, aproam na ilha e João Batista passeia pela sua Parintins como homenagem.

 

 

2020 de transições e grandes mudanças

 

O Boi Garantido passou por um ano de transições e grandes mudanças em seu corpo de itens, retornos memoráveis e condensou tamanho turbilhão em uma proposta de retorno às origens e ao bairro da Baixa de São José. O bumbá propõe com seu tema para 2021, pós pandemia mundial, um reencontro com Lindolfo Monteverde e com o rufar da batucada vermelha e branca.

Com ‘Eu amo Parintins’, o Boi promete discutir a relação cultural, ou melhor, essencial do povo parintinense com Festival, a solidão dos brincantes frente a ausência das festividades por conta do coronavírus, e por fim, apresenta-se como “garantido garantidor’ das boas novas, uma catarse onde se celebrará o retorno dos abraços, das multidões e comemorações.

 

Perspectiva antropológica do Festival de Parintins

 

Quando analisa-se a relação quase que biológica do parintinense com o Festival de Parintins percebe-se a constituição de uma comunidade em torno dos bumbás, um sentimento latente de pertencimento e um orgulho empoderador do folclore enquanto definição de identidades.

Levando em conta a etnografia do festival protagoniza-se o contexto da região amazônica, sendo assim, é totalmente cabível entender o Boi-Bumbá como um nativismo contemporâneo, além disso, ao valorizar as raízes regionais indígenas, contribui, positivamente, para a construção de um reconhecimento cultural caboclo.

 

Parintinense e o Festival

 

A nuclear valorização das raízes regionais e a consequente afirmação de uma legítima identidade cultural reflete-se, por óbvio, na participação e envolvimento dos nativos da ilha com o Festival. Em um processo de troca mútua, o Festival alcançou nos últimos anos dimensões massivas, tornou-se uma das grandes manifestações populares do Norte do país e atrai milhares de pessoas do Brasil e do Mundo todos os anos; por sua vez, o povo parintinense firma-se como o representante e guardião do folclore amazônico.

 

Contemporaneidade do Festival de Parintins
 

O Festival Folclórico de Parintins, em verdade, vivifica a cultura popular e esse aspecto é força motriz para a longevidade e atualização da manifestação. Em um primeiro momento parece contraditório a combinação da modernização para manutenção, no entanto, o Festival Folclórico de Parintins implementou com louvor esse mecanismo.

Tal fenômeno se deu em virtude, justamente, da consciência e propriedade do povo parintinense sobre o Festival. Ocorreu, em um processo que perpassa um século, a coletivização da autoria do Festival Folclórico. O povo guerreiro da Ilha Tupinambarana mantém e representa as suas tradições, lendas, mitos, canções e celebrações, bem como, incorpora outras tradições, quais sejam, portuguesas, africanas e afins.

Por conta da solidez do festival não se percebe a magnitude da manifestação e nem quão significativa é a participação dos nativos em termos de contribuição cultural. Eleva-se, facilmente, os ‘parintintins’, hoje, parintinenses, ao grau de representantes nacionais da cultura popular.

 

 

Luto Parintinense

 

Um povo ávido por boi-bumbá e com o coração colorido experimentou nesse ano atípico uma dolorosa solidão e um sentimento de incompletude. A ilha encantada não se dividiu em Garantido e Caprichoso, pelo contrário, uniu-se em torno do “luto parintinense”.

A ausência do Festival Folclórico reverberou pela orla do Rio Amazonas, ecoou na Catedral de Nossa Senhora do Carmo e silenciou os currais dos bois.

Uma Parintins diferente e isolada que viu seus habitantes padecerem fisicamente e emocionalmente, por conta da covid-19 e portões fechados do Bumbódromo.

O grito do parintinense nesse hiato nunca demandado aguarda ansioso o retorno do exílio forçado. Os tambores rufam e os brincantes compassam. Os olhos dos antigos marejam em saudosismo e os dos novos vibram esperança.

O grande teatro amazônico, em verdade, adequa-se e nesse ano sabático, não por opção, reflete e ressurge. Essa seria a proposta do boi vermelho e branco, um Renascimento.

 

 

Garantido e o ‘Eu amo Parintins’
 

A pandemia fez surgir um sentimento por muitos esquecido e quase tão mítico e remoto quanto as tradições que os bois encenam tão vividamente, qual seja, a união. Projeta-se uma nova realidade pós coronavírus e não seria diferente com o Festival, acredita-se em um celebração total e conjunta em torno da luta pelo folclore e cultura.

Nesse episódio da história mundial com requintes apocalípticos, o povo amazonense, mais especificamente o parintinense, em meio a tantas baixas ainda mantém o espírito guerreiro e subversivo dos seus antepassados, empunha orgulhoso o título de guardião de tradições e emposta a voz contra as tentativas humanas e até virais que ousam opor-se à cultura popular.

O Boi Vermelho e Branco apresenta-se como o símbolo da superação da covid e reencontro do povo parintinense com o seu amor primeiro. Desta forma, nesse momento, pedimos licença às galeras para, por enquanto, enquanto fora do Bumbódromo, nos referirmos aos bumbás sem a tradicional denominação ‘contrário’ e exaltar, justamente, a união e empatia folclórica que nutre a relação entre Garantido e Caprichoso, ambos ferrenhos defensores da arte.

 

 

Parintins arte
 

Por fim, celebremos a Parintins que ressurge e agradeçamos ao povo parintinense que bravamente resiste ao desmantelamento e desvalorização da cultura. Nas palavras de Chico da Silva, na emblemática “Cantiga de Parintins” homenageamos a Ilha Tupinambarana.

 

Na ilha tupinambarana nasceu parintins

Que eu vou decantar

Parintins dos parintintins é o nome da tribo

Desse lugar

 

No seio da mata virgem

A pureza das araras

O som do silêncio morno

A maloca dos caiçaras

O canto da ariranha

Barranco do rio mar

O som rouco do remanso

O mormaço branco no ar

O cantar do miri miri

Mari mari e taperebá

O cheiro do muruci

O vinho de patauá

 

Na ilha tupinabarana…

 

O lombo de peixe-boi

Pirarucu bem assado

Piracuí de bodó

Tucunaré moqueado

Manja de turma se esconde

A outra vai procurar

A tribo das andirás

E a dança do tangará

Terra de dona çiloca

Pastoras e o meu boi bumbá

A pesca da piraíba

Viração de tracajá

 

Na ilha tupinabarana…

 

 

Veja também: Portal Maloca – A luta dos povos indígenas na voz de Thaline Karajá

 

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